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Selic e CDI: o que cada um é e por que andam quase colados

Uma é decidida por oito pessoas numa sala; a outra nasce de empréstimos entre bancos. Entender a diferença explica o que significa um investimento pagar "100% do CDI".

Por Murilo · Publicado em 20 de agosto de 2026 · 10 min de leitura

Em resumo

  • A Selic é decidida pelo Copom a cada 45 dias. O CDI se forma no mercado, entre bancos.
  • O CDI acompanha a Selic e fica um pouco abaixo — em agosto de 2026, 0,10 ponto percentual.
  • "100% do CDI" não é promessa de 100% de rendimento: é a taxa cheia daquele indexador.
  • Juro nominal não é juro real. Descontada a inflação, 14% ao ano viram cerca de 9,15%.
  • Todos esses números mudam. As séries oficiais do Banco Central são públicas e gratuitas.

Toda conversa sobre renda fixa esbarra em duas siglas nos primeiros trinta segundos. Elas aparecem juntas com tanta frequência que muita gente supõe serem a mesma coisa.

São coisas diferentes, com origens diferentes — e andam quase coladas por um motivo que vale entender, porque é o que dá sentido a expressões como “110% do CDI”.

A Selic é uma decisão

A Selic é a taxa básica de juros da economia brasileira. Ela não emerge de negociação: é definida por um comitê.

O Copom — Comitê de Política Monetária do Banco Central — se reúne a cada 45 dias e anuncia a meta. Essa meta é o principal instrumento de controle da inflação: juro alto encarece o crédito e esfria o consumo; juro baixo faz o contrário.

Onde estávamos em agosto de 2026

IndicadorValorFonte
Meta Selic14,00% ao anoCopom / série 432 do BC
CDI13,90% ao anoSérie 4389 do BC
IPCA acumulado em 12 meses4,44%IBGE / série 13522 do BC

Números de agosto de 2026. Eles mudam — o modo de conferir está no fim do artigo.

Existe uma distinção fina que vale registrar: a meta Selic é o que o Copom anuncia; a Selic efetiva, também chamada Selic over, é a taxa que de fato se pratica nas operações com títulos públicos. Ela flutua muito perto da meta, normalmente alguns centésimos abaixo.

O CDI é um preço

O CDI nasce de outro lugar. Todo dia, bancos emprestam dinheiro uns aos outros por um dia — as operações de Certificado de Depósito Interbancário.

Isso existe porque os bancos são obrigados a fechar o dia com caixa positivo. Quem sobrou empresta; quem faltou toma emprestado. A taxa média dessas operações é o CDI.

Ninguém decide o CDI numa reunião. Ele é a média do que aconteceu.

Por que os dois andam colados

Um banco com dinheiro sobrando tem duas opções: emprestar a outro banco, ou comprar título público e receber a Selic.

Se o interbancário pagasse bem menos que a Selic, ninguém emprestaria — todos comprariam título. Se pagasse bem mais, todos migrariam para o interbancário. O resultado é que as duas taxas se perseguem.

E o CDI fica sistematicamente um pouco abaixo. O motivo é risco: emprestar ao governo brasileiro em reais é a operação mais segura disponível no país; emprestar a outro banco, não. Quem toma o risco maior teria que ser pago mais — mas aqui a competição pelo dinheiro empurra a taxa interbancária para baixo da referência, e é a Selic que funciona como piso de atratividade.

A diferença é pequena. Em agosto de 2026, 0,10 ponto percentual — o CDI equivalia a 99,3% da Selic. É por isso que, na prática, tratar os dois como sinônimos raramente muda uma conta. Mas eles não são a mesma coisa.

O que “100% do CDI” quer dizer

Esta é a confusão mais cara do vocabulário de renda fixa.

Cem por cento do CDI não é 100% de rendimento. É a taxa cheia do indexador — nada mais.

R$ 10.000 por um ano, com CDI a 13,9%

Remuneração oferecidaRendimento brutoValor
90% do CDI12,51%R$ 1.251,00
100% do CDI13,90%R$ 1.390,00
110% do CDI15,29%R$ 1.529,00

Valores brutos, antes do imposto de renda.

Repare que a diferença entre 90% e 110% do CDI — que parece pequena escrita assim — é de R$ 278 em R$ 10.000, ou seja, 20% a mais de rendimento.

Para saber quanto disso sobra depois do imposto, a conta seguinte é a tabela regressiva do imposto de renda.

O número que quase ninguém calcula

Render 14% ao ano parece excelente. Mas juro nominal não é juro real.

Se os preços subiram 4,44% no mesmo período, parte do rendimento apenas repôs o poder de compra que a inflação levou. O que sobrou de ganho verdadeiro é menos.

Do nominal para o real

Rendimento nominal14,00%
Inflação (IPCA 12 meses)4,44%
Ganho real≈ 9,15%

A conta não é subtrair. É (1,14 ÷ 1,0444) − 1, porque a inflação incide sobre o montante corrigido.

Nove por cento reais ainda é um número alto em termos históricos e internacionais. Mas é bem diferente de quatorze — e é a diferença entre os dois que diz se o dinheiro cresceu de verdade.

O mecanismo por trás disso está em como a inflação corrói o dinheiro parado.

Quando a Selic muda, o que acontece

Depende do que você tem:

Pós-fixado atrelado ao CDI. Acompanha quase de imediato, porque o indexador é diário. Selic sobe, o rendimento sobe junto; Selic cai, cai junto.

Pré-fixado. Não muda nada no papel — a taxa foi travada na compra. Mas o valor de mercado dele muda: se os juros caem, um papel que trava juro alto passa a valer mais; se sobem, vale menos. Só importa se você vender antes do vencimento.

Atrelado à inflação (IPCA+). Reage à expectativa de inflação e ao juro real, não à Selic diretamente.

A tradução desses três formatos está em pré, pós e IPCA+.

Onde conferir, sem intermediário

Os números deste artigo saíram da fonte primária, que é pública e gratuita: o Sistema Gerenciador de Séries Temporais do Banco Central.

  • Série 432 — meta Selic definida pelo Copom
  • Série 4389 — taxa CDI anualizada
  • Série 13522 — IPCA acumulado em 12 meses

O calendário das reuniões do Copom também é publicado com antecedência no site do Banco Central, então dá para saber quando a próxima decisão sai.

Vale o hábito de conferir na fonte. Taxa é o tipo de informação que envelhece rápido, e material desatualizado circula por anos — inclusive este artigo, se você estiver lendo muito depois de agosto de 2026.

Perguntas frequentes

Qual a diferença prática entre Selic e CDI?

A Selic é uma decisão de política monetária: o Copom se reúne a cada 45 dias e define a meta. O CDI é um preço de mercado, formado nos empréstimos de um dia entre bancos. Como esses empréstimos competem com a remuneração dos títulos públicos, o CDI acaba grudado na Selic — sempre um pouco abaixo.

Um CDB que paga 100% do CDI rende 100% do quê?

Cem por cento da taxa CDI do período, não do valor aplicado. Se o CDI acumular 13,9% em um ano, 100% do CDI significa render esses 13,9% brutos. Pagar 90% do CDI é render 90% dessa taxa; 110% é render 110% dela. A confusão é comum e faz o número parecer muito maior do que é.

Por que o CDI é sempre menor que a Selic?

Porque o banco que empresta a outro banco assume um risco que não existe ao emprestar ao governo. Se pudesse ganhar mais no interbancário, migraria para lá; se ganhasse muito menos, preferiria o título público. Esse arbitramento mantém as duas taxas coladas, com o CDI ligeiramente abaixo.

Quando a Selic muda, meu investimento muda na hora?

Depende do tipo. Aplicação pós-fixada atrelada ao CDI acompanha quase imediatamente, porque o indexador é diário. Aplicação pré-fixada não muda nada — a taxa foi travada na compra, e é justamente por isso que ela ganha ou perde valor conforme os juros caem ou sobem.

Onde vejo a taxa de hoje sem depender de blog?

No Sistema Gerenciador de Séries Temporais do Banco Central, que é público e gratuito. A série 432 traz a meta Selic e a 4389, a taxa CDI anualizada. É a mesma fonte que alimenta os números deste artigo.

Fontes consultadas

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