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Cheque especial: o teto de 8% ao mês e por que ainda é caro

Desde 2020 existe um limite legal para o juro do cheque especial. Entender o que ele limita — e o que não limita — explica por que a conta continua pesada.

Por Murilo · Publicado em 19 de agosto de 2026 · 8 min de leitura

Em resumo

  • O juro do cheque especial é limitado a 8% ao mês por norma do Conselho Monetário Nacional.
  • 8% ao mês não equivale a 96% ao ano. Com juro composto, equivale a 151,8%.
  • A mesma norma permitiu uma tarifa de até 0,25% sobre a parte do limite que passa de R$ 500.
  • A tarifa é cobrada sobre o limite disponibilizado — mesmo que você nunca entre no vermelho.
  • O teto é máximo, não é preço. Cada banco pratica a taxa que quiser abaixo dele.

O cheque especial tem uma característica que o torna diferente de qualquer outra dívida: ele não precisa ser contratado. O limite já está lá, e basta a conta ficar negativa para ele começar a rodar.

Desde 2020 existe um teto legal para o que ele pode cobrar. Vale entender exatamente o que esse teto limita — porque a parte que ele não limita explica a maior parte das reclamações.

O que a norma estabeleceu

A Resolução CMN nº 4.765, de novembro de 2019, com efeitos a partir de janeiro de 2020, fixou duas coisas:

  1. Os juros do cheque especial ficam limitados a 8% ao mês em operações com pessoa física e microempreendedor individual.
  2. O banco pode cobrar uma tarifa de até 0,25% ao mês sobre a parcela do limite disponibilizado que ultrapassar R$ 500.

O primeiro item é um teto de preço. O segundo é uma cobrança nova, que antes não existia.

8% ao mês não é 96% ao ano

Este é o ponto onde a maioria das pessoas subestima o custo.

A conta intuitiva é multiplicar: 8 vezes 12 dá 96% ao ano. Está errada, porque o juro do segundo mês não incide sobre o valor original — incide sobre o valor original mais o juro do primeiro mês.

Uma dívida de R$ 1.000 no cheque especial, a 8% ao mês

MêsSaldo devedor
EntradaR$ 1.000,00
1R$ 1.080,00
3R$ 1.259,71
6R$ 1.586,87
12R$ 2.518,17

Em doze meses o saldo dobrou com folga. A taxa anual equivalente é de 151,8%, não 96%.

A fórmula é (1 + 0,08)¹² − 1. É a mesma matemática dos juros compostos, só que trabalhando contra você.

A tarifa que independe do uso

A tarifa de 0,25% é o ponto que gera mais estranheza, porque ela não depende de você usar o cheque especial. Ela incide sobre o limite disponibilizado.

Como a tarifa é calculada

Limite do cheque especialR$ 3.000,00
Parcela isenta− R$ 500,00
Base de cálculoR$ 2.500,00
Tarifa (0,25%)R$ 6,25 por mês

São R$ 75 por ano por um limite que talvez você nunca use.

Se você não usa o cheque especial, o limite é custo puro. Reduzir o limite para R$ 500 ou pedir o cancelamento elimina a tarifa. O banco é obrigado a atender o pedido de redução, e isso se faz pelo aplicativo ou pelo atendimento.

Vale a ressalva de que o limite disponível também funciona como uma rede — some junto com a tarifa. Essa é a troca, e ela é sua para avaliar.

Teto não é preço

Um erro comum é ler “8% ao mês” como se fosse a taxa. Não é: é o máximo permitido. Cada banco define a sua taxa abaixo desse teto, e elas variam bastante entre instituições.

Na prática, a norma comprimiu as taxas que estavam muito acima e aproximou boa parte do mercado do próprio teto. O Banco Central publicou uma avaliação do efeito da medida, que vale a leitura de quem quiser o quadro completo.

A sua taxa específica está na fatura e no extrato, e o banco é obrigado a informá-la ao mês e ao ano.

Como a cobrança acontece no dia a dia

O juro do cheque especial é proporcional aos dias de uso. Ficar dois dias no vermelho não custa um mês de juro.

O que costuma passar despercebido é a sequência: o salário entra, cobre o saldo negativo, e o mês recomeça no zero — mas os dias em que a conta ficou negativa já geraram juro, que é debitado no mês seguinte. Esse débito empurra a conta de novo para o vermelho, um pouco mais cedo do que no mês anterior.

É assim que o uso ocasional vira uso permanente sem que ninguém tenha decidido nada.

Onde comparar

O Banco Central publica as taxas médias praticadas por cada instituição em cada modalidade de crédito, atualizadas periodicamente. É a fonte para saber se a sua taxa está perto ou longe do que o mercado pratica.

O caminho é o site do Banco Central, na seção de taxas de juros de operações de crédito, filtrando pela modalidade “cheque especial — pessoa física”.

Onde isso se encaixa

O cheque especial e o rotativo do cartão são as duas linhas mais caras do crédito de varejo brasileiro, e funcionam de modo parecido: ambos cobram sobre o saldo, ambos capitalizam mês a mês, e nenhum dos dois exige uma decisão consciente de contratar.

Se você tem dívida em mais de um lugar, colocar todas lado a lado com a taxa de cada uma costuma mudar a percepção de qual é a mais urgente. É para isso que serve o mapa de dívidas na seção de downloads dos artigos sobre o tema.

Perguntas frequentes

O banco pode cobrar mais de 8% ao mês no cheque especial?

Não em operações com pessoa física e microempreendedor individual. A Resolução CMN 4.765 limita os juros remuneratórios do cheque especial a 8% ao mês. Se a sua fatura mostra taxa acima disso, vale questionar o banco e, se não resolver, registrar reclamação no Banco Central.

Por que me cobram uma tarifa mesmo sem eu usar o cheque especial?

A mesma resolução que criou o teto de juros permitiu ao banco cobrar até 0,25% ao mês sobre a parcela do limite disponibilizado que ultrapassa R$ 500. A cobrança é pelo limite estar disponível, não pelo uso. Num limite de R$ 3.000, isso dá R$ 6,25 por mês. Reduzir ou cancelar o limite junto ao banco elimina a tarifa.

8% ao mês dá quanto por ano?

151,8% ao ano, e não 96%. A diferença aparece porque o juro do mês seguinte incide sobre o saldo que já inclui o juro do mês anterior. A conta é (1,08 elevado a 12) menos 1.

O juro é cobrado pelo mês inteiro mesmo se eu ficar dois dias no vermelho?

Não. A taxa é mensal, mas a cobrança é proporcional aos dias em que o saldo ficou negativo. Dois dias no vermelho custam dois dias de juro — o que não torna barato, porque a taxa diária embutida numa taxa de 8% ao mês continua alta.

Fontes consultadas

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