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Caiu num golpe do Pix: como funciona o pedido de devolução

O Banco Central criou um mecanismo para tentar recuperar Pix enviado sob fraude. Ele tem prazos rígidos e uma taxa de sucesso baixa — vale entender os dois antes de contar com ele.

Por Murilo · Publicado em 20 de agosto de 2026 · 9 min de leitura

Em resumo

  • O pedido se abre pelo seu próprio banco, no app, a partir da transação no extrato.
  • O prazo é de 80 dias contados da transação original. Depois disso o sistema recusa.
  • O banco de quem recebeu deve bloquear o valor assim que notificado, e tem 7 dias para analisar.
  • Só se recupera o que ainda estiver na conta do golpista — por isso velocidade importa mais que argumento.
  • Em 2025, a média recuperada foi de cerca de 9% do valor contestado.

O Pix é irrevogável por desenho: uma vez liquidado, não existe “cancelar”. Foi essa característica que o tornou instantâneo, e é a mesma que o tornou atraente para golpe.

Para tratar disso, o Banco Central criou o Mecanismo Especial de Devolução, o MED. Vale entender o que ele faz — e, com igual importância, o que ele não faz.

O que o mecanismo é

Não é um estorno. É um procedimento coordenado entre bancos para tentar bloquear e devolver o dinheiro que ainda estiver na conta de quem recebeu.

A distinção importa: um estorno de cartão sai do sistema de pagamentos e o lojista discute depois. O MED depende de o dinheiro ainda existir na ponta.

O caminho, do seu lado

Tudo começa no aplicativo do seu banco, não no do golpista nem numa delegacia.

  1. Abrir o extrato ou o extrato Pix
  2. Selecionar a transação suspeita
  3. Iniciar a contestação a partir dela
  4. Informar o tipo de ocorrência — golpe, invasão de conta, coerção, acesso fraudulento ou outro

O guia do Banco Central determina que o banco deve abrir o pedido imediatamente após o relato do cliente. Não há exigência de boletim de ocorrência para iniciar.

A variável que mais pesa é o tempo. O mecanismo bloqueia o saldo que ainda está lá. Cada hora de atraso é uma hora a mais para o dinheiro ser sacado ou distribuído. Registrar o B.O. antes de avisar o banco inverte a ordem de prioridade.

Os prazos, em números

Prazos definidos pelo Banco Central

EtapaPrazo
Abrir o pedido, contado da transação originalaté 80 dias
Abrir o pedido, se contestando uma devoluçãoaté 30 dias
Bloqueio do valor pelo banco que recebeuimediato, ao ser notificado
Análise pelo banco que recebeu7 dias corridos
Seu banco solicitar a devolução, após a análiseaté 72 horas
Efetivação da devolução por quem recebeuaté 6 horas

Os 80 dias são generosos na aparência e enganosos na prática. Eles definem quando o sistema ainda aceita o pedido — não quando ele ainda tem chance de dar certo.

O número que quase ninguém publica

Aqui está o dado que muda a expectativa: segundo as estatísticas do próprio Banco Central, em 2025 a média recuperada foi de aproximadamente 9% do valor contestado.

Nove por cento. Não noventa.

O motivo é estrutural. Golpista que opera com método não deixa o dinheiro parado: transfere para outras contas em cadeia e saca em minutos. Quando a notificação chega, a conta que recebeu costuma estar zerada.

Esse é o tipo de informação que raramente aparece em material sobre o assunto, e é justamente a que serve para decidir o que fazer: o mecanismo existe e vale acionar sempre, mas contar com ele é imprudente. A proteção real está em não enviar.

O que está mudando

O Banco Central desenvolve uma versão chamada MED 2.0, cuja diferença central é rastrear as transações seguintes — não apenas a primeira conta que recebeu.

Na versão atual, o bloqueio alcança só a conta de destino imediata. Se o dinheiro já passou adiante, acabou. A nova versão persegue a cadeia, o que ataca exatamente a causa da taxa baixa.

Como é assunto em evolução, vale conferir o estado da regra na data em que você estiver lendo.

Quando o caminho é outro

O MED trata de transação que você fez, enganado. Existem situações diferentes, que seguem outra via:

Invasão da sua conta. Se alguém acessou o seu aplicativo e fez Pix sem você, não é golpe de convencimento — é falha de segurança. A responsabilidade discutida é da instituição, e o caminho é atendimento, ouvidoria e, persistindo, o registro no Banco Central e a via judicial.

Coerção. Pix feito sob ameaça, como no chamado sequestro relâmpago. Entra no mecanismo, com classificação própria, e o boletim de ocorrência aqui pesa.

Erro seu, sem fraude. Digitou a chave errada e enviou para um desconhecido. Aí não é caso de MED: é pedido de devolução por engano operacional, que depende da boa-fé de quem recebeu. Reter valor recebido por erro conhecido, aliás, pode configurar apropriação indébita.

A ordem prática

Se acontecer:

  1. Abrir a contestação no app do banco, na hora. Antes de qualquer outra coisa.
  2. Reunir as provas — conversas, número de telefone, perfil, comprovante. Servem para o B.O. e para eventual ação.
  3. Registrar boletim de ocorrência, pela delegacia eletrônica do seu estado.
  4. Acompanhar o resultado pelo próprio app, dentro dos prazos acima.
  5. Se o banco não abrir o pedido ou não responder, subir para a ouvidoria e depois para o Banco Central. A reclamação lá não devolve dinheiro, mas entra no ranking público da instituição.

Por que isso está neste site

Golpe financeiro é a ponta mais cara da falta de informação, e o mecanismo de defesa que existe é pouco conhecido e frequentemente mal descrito — em geral prometendo mais do que entrega.

Aqui a descrição é a do próprio Banco Central, prazos e taxa de sucesso incluídos. O que fazer com isso é decisão sua.

Se o assunto é o que o banco pode e não pode fazer com o seu dinheiro no dia a dia, o complemento natural é a lista de serviços que são gratuitos por lei.

Perguntas frequentes

Quanto tempo tenho para pedir a devolução?

Até 80 dias contados da transação original. Se o que você quer contestar for uma transação de devolução, o prazo cai para 30 dias. Passado o prazo, o próprio app deve informar que a contestação via MED não é mais possível — resta a via judicial.

Preciso registrar boletim de ocorrência antes?

Não para abrir o pedido. O procedimento começa no aplicativo do seu banco, a partir da transação no extrato, e o banco deve abri-lo imediatamente com base no seu relato. O boletim de ocorrência é útil como prova para outras finalidades, mas esperar por ele custa tempo — e tempo é a variável que mais afeta o resultado.

Se o golpista já tiver sacado, ainda dá para recuperar?

Não pelo mecanismo. Ele funciona bloqueando o saldo que ainda está na conta que recebeu. Sem saldo, não há o que bloquear. É exatamente por isso que a taxa média de recuperação é baixa: golpista experiente distribui e saca o dinheiro em minutos.

O banco é obrigado a me devolver o dinheiro?

O mecanismo não obriga o seu banco a repor de bolso próprio. Ele organiza a tentativa de reaver o dinheiro de quem recebeu. Situações em que houve falha do banco — invasão de conta, falha de segurança, transação que você não autorizou — seguem outra via, de responsabilidade da instituição, e aí cabem ouvidoria, Banco Central e, se necessário, ação judicial.

E se eu recebi um Pix por engano?

Você pode devolver por iniciativa própria pelo app, e é o que se espera. Reter valor recebido por erro conhecido pode configurar apropriação indébita. A devolução por engano operacional é um caminho separado do usado em fraude.

Fontes consultadas

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