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Pré, pós e IPCA+: como cada tipo de renda fixa funciona

O mecanismo por trás dos três formatos de remuneração, o que muda quando a Selic sobe ou cai, e por que "renda fixa" não significa retorno garantido.

Por Murilo · Publicado em 17 de agosto de 2026 · 10 min de leitura

Em resumo

  • "Renda fixa" significa regra de remuneração conhecida — não retorno garantido nem ausência de risco.
  • Pré-fixado trava a taxa hoje. Você sabe quanto recebe, mas perde se os juros subirem.
  • Pós-fixado acompanha um índice. Rende mais quando os juros sobem, menos quando caem.
  • IPCA+ paga inflação mais uma taxa fixa, protegendo o poder de compra.
  • Vender antes do vencimento expõe você à marcação a mercado, que pode gerar perda.

“Renda fixa” é um nome que confunde. Ele não significa que o retorno é fixo, nem que não existe risco.

Significa que a regra de remuneração é conhecida no momento em que você aplica. Você sabe se vai receber uma taxa travada, ou um percentual de algum índice.

O que essa regra vai produzir em reais, isso depende.

Os três formatos

Pré-fixado

A taxa é definida na hora da aplicação e não muda.

“Este título paga 11% ao ano.”

Você sabe exatamente quanto vai receber no vencimento, em reais. É o único formato que permite isso.

O que você assume: se os juros da economia subirem depois, você fica travado numa taxa que virou baixa. Se caírem, você fica travado numa taxa que virou boa.

É uma aposta sobre a direção dos juros, mesmo que ninguém chame assim.

Pós-fixado

A remuneração acompanha um índice, normalmente o CDI.

“Este título paga 102% do CDI.”

Você não sabe o valor final, porque depende de como o índice se comportar. Mas sabe que vai acompanhar o movimento dos juros.

Como se comporta: juros sobem, rende mais. Juros caem, rende menos.

IPCA+

Paga a inflação medida pelo IPCA mais uma taxa fixa por cima.

“Este título paga IPCA + 6% ao ano.”

O que ele garante é poder de compra: se a inflação for de 4%, você recebe 10%; se for 9%, recebe 15%. Nos dois casos, você fica 6% acima da inflação.

Para que serve: objetivos de prazo longo, onde a inflação acumulada é o principal inimigo.

Entendendo os índices

Selic

A taxa básica da economia, definida pelo Comitê de Política Monetária do Banco Central a cada 45 dias. É a referência de todas as outras.

CDI

A taxa média dos empréstimos que os bancos fazem entre si, de um dia para o outro. Anda quase colado à Selic, ligeiramente abaixo.

Por isso um título que paga 100% do CDI rende aproximadamente a Selic.

IPCA

O índice oficial de inflação do Brasil, calculado pelo IBGE. Mede a variação de preços de uma cesta de consumo das famílias.

Por que importa: um rendimento de 10% num ano de inflação de 12% é um prejuízo real de 2%. O dinheiro cresceu em número e encolheu em poder de compra.

O que muda quando a Selic se move

Este é o mecanismo central, e o que explica por que os três formatos existem.

Selic SOBE

FormatoEfeito
Pré-fixado (já comprado)Sua taxa travada ficou pior que as novas
Pós-fixadoPassa a render mais, automaticamente
IPCA+ (já comprado)Preço de mercado do título cai

Selic CAI

FormatoEfeito
Pré-fixado (já comprado)Sua taxa travada ficou melhor que as novas
Pós-fixadoPassa a render menos, automaticamente
IPCA+ (já comprado)Preço de mercado do título sobe

Repare que nenhum formato é bom ou ruim em si. Cada um responde de um jeito a um cenário que ninguém consegue prever com segurança — inclusive quem afirma que consegue.

Marcação a mercado: o risco que surpreende

Este é o ponto que mais gera susto em quem acha que renda fixa “não cai”.

Se você carrega o título até o vencimento, recebe exatamente o que foi combinado.

Se você vende antes, recebe o preço de mercado do dia. E esse preço oscila conforme as expectativas de juros mudam.

Um pré-fixado ou um IPCA+ resgatado no meio do caminho pode devolver menos do que você aplicou — mesmo sendo um título seguro, mesmo o emissor estando saudável.

Títulos pós-fixados de liquidez diária são bem menos sensíveis a isso, porque acompanham a taxa corrente em vez de travá-la.

A implicação prática: o prazo do título deveria conversar com o prazo do seu objetivo. Dinheiro que pode ser necessário a qualquer momento tem uma característica diferente de dinheiro que vai ficar parado cinco anos.

Os riscos que continuam existindo

Risco de crédito. O emissor pode não pagar. É por isso que existe o FGC, que cobre parte das aplicações em instituições associadas até um limite por CPF e por instituição.

O FGC cobre CDB, LCI, LCA, poupança e conta corrente. Não cobre título público (que tem o risco do próprio governo), fundo de investimento nem debênture.

Os limites e regras vigentes estão no site do FGC — e mudam, então vale conferir na fonte.

Risco de mercado. A marcação a mercado explicada acima.

Risco de inflação. Render menos que a inflação é perder poder de compra, mesmo com o número crescendo.

Risco de liquidez. Nem todo título permite resgate quando você quiser. Alguns têm carência.

Tributação, resumida

A maioria dos títulos de renda fixa segue a tabela regressiva de Imposto de Renda: quanto mais tempo aplicado, menor a alíquota.

Também há IOF em resgates nos primeiros 30 dias, que é regressivo por dia e some depois desse prazo.

Alguns títulos têm isenção de IR para pessoa física — LCI e LCA são os exemplos mais conhecidos. Isso muda a comparação entre alternativas, porque uma taxa menor isenta pode superar uma maior tributada.

As alíquotas e regras exatas mudam com a legislação. Confira sempre na Receita Federal antes de contar com um número específico.


O que este artigo deliberadamente não faz

Você reparou que não há nenhuma indicação de qual formato escolher, nem de qual título comprar.

Isso é intencional. A escolha depende do seu prazo, do seu objetivo, da sua necessidade de liquidez e do cenário no momento — e essa é uma análise individual, que só um consultor registrado na CVM pode fazer para você.

O que este texto entrega é o mecanismo. Com ele, você consegue ler a oferta de qualquer instituição e entender o que está sendo proposto, em vez de aceitar a explicação de quem está vendendo.

Perguntas frequentes

"Renda fixa" quer dizer que não tenho risco?

Não. Significa apenas que a regra de remuneração é conhecida no momento da aplicação — você sabe se vai receber uma taxa fixa, ou um percentual de um índice. Continua havendo risco de crédito (o emissor pode não pagar), risco de mercado (se você vender antes do vencimento) e risco de a inflação superar o rendimento.

Qual a diferença entre CDI e Selic?

A Selic é a taxa básica definida pelo Banco Central a cada 45 dias. O CDI é a taxa média dos empréstimos que os bancos fazem entre si, de um dia para o outro. Na prática os dois andam quase colados — o CDI costuma ficar ligeiramente abaixo da Selic. Por isso um título que paga "100% do CDI" rende aproximadamente a Selic.

O que acontece se eu resgatar antes do vencimento?

Você fica sujeito à marcação a mercado: o título é vendido pelo preço do dia, que oscila conforme as expectativas de juros. Em pré-fixados e IPCA+ isso pode significar receber menos do que aplicou, mesmo o título sendo seguro. Títulos pós-fixados de liquidez diária costumam ser bem menos sensíveis a isso.

O que o FGC cobre?

O Fundo Garantidor de Créditos cobre aplicações em instituições associadas até um limite por CPF e por instituição, com um teto global a cada período de quatro anos. Cobre CDB, LCI, LCA, poupança e conta corrente, entre outros. Não cobre título público, fundo de investimento nem debênture. Confira os valores e as regras vigentes no site do próprio FGC.

Fontes consultadas

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