Pular para o conteúdo

Marcação a mercado: por que um título do Tesouro cai antes do vencimento

O preço de um título prefixado é o valor futuro trazido para hoje pela taxa de mercado do dia. Quando a taxa sobe, esse desconto aumenta e o preço na tela cai — sem que nada tenha mudado no título.

Por Murilo · Publicado em 20 de agosto de 2026 · Atualizado em 14 de outubro de 2026 · 16 min de leitura

Em resumo

  • Os preços do Tesouro Direto refletem o mercado secundário de títulos públicos — é isso que se chama marcação a mercado.
  • O preço de um prefixado é o valor de vencimento descontado pela taxa do dia; taxa maior significa preço menor.
  • Quanto mais longo o prazo até o vencimento, maior a oscilação do preço para a mesma variação de taxa.
  • A oscilação só vira resultado se houver venda antecipada; levando ao vencimento, vale a taxa contratada.
  • Antes do vencimento há dois preços: o teórico, que segue a taxa contratada, e o de mercado, que é o que aparece no extrato.
  • O imposto de renda segue a tabela regressiva de 22,5% a 15%, conforme o prazo da aplicação.

A cena é conhecida: a pessoa compra um título público, deixa quieto, abre o aplicativo meses depois e vê o valor abaixo do que aplicou. Em um investimento chamado “o mais seguro do mercado”.

Não houve calote nem erro. Houve marcação a mercado — e ela é aritmética, não opinião.

O que a marcação a mercado é

O Tesouro Nacional publica diariamente os preços e as taxas dos títulos ofertados. Segundo o próprio Tesouro, esses preços refletem o mercado secundário de títulos públicos federais: são as taxas e preços de compra e venda praticados naquele dia.

Marcar a mercado é isso: exibir o valor pelo qual o título seria negociado hoje, e não o valor pelo qual você o comprou.

No Tesouro Direto, esse número tem uma consequência concreta, porque o resgate antecipado é feito pelo preço de mercado. Segundo o Tesouro, há liquidez diária, com resgate disponível a qualquer momento: nos dias úteis, das 9h30 às 18h, vale o preço do momento; fora desse horário, o preço de abertura do dia útil seguinte. A regra tem exceções no mesmo texto do Tesouro: o Tesouro RendA+ e o Educa+ só podem ser resgatados após 60 dias da compra, e os títulos com juros semestrais têm o resgate suspenso dois dias úteis antes do pagamento.

De onde vem o preço

Um título prefixado é uma promessa simples: pagar um valor conhecido numa data conhecida. Na metodologia que o Tesouro publica para os leilões, o prefixado sem juros semestrais (a LTN) tem valor de face de R$ 1.000 no vencimento.

O preço de hoje é esse valor futuro trazido para o presente pela taxa negociada no dia:

preço = 1.000 ÷ (1 + taxa)^anos até o vencimento

Na metodologia que o Tesouro publica para os leilões, o expoente é o número de dias úteis até o vencimento dividido por 252. Neste artigo, para a conta ficar legível, o prazo vai em anos inteiros.

É a mesma matemática dos juros compostos, rodando de trás para a frente. E é por isso que a relação entre taxa e preço é sempre inversa: aumentar a taxa aumenta o divisor.

Preço de um prefixado de R$ 1.000, por taxa e prazo

Anos até o vencimentoTaxa 10% a.a.Taxa 12% a.a.Taxa 14% a.a.
1R$ 909,09R$ 892,86R$ 877,19
5R$ 620,92R$ 567,43R$ 519,37
10R$ 385,54R$ 321,97R$ 269,74

Repare no efeito do prazo. Passar de 12% para 14% muda o preço de um título de 1 ano em cerca de 1,8%. Muda o preço de um título de 10 anos em cerca de 16%.

O prazo é o multiplicador da oscilação. Dois títulos com a mesma taxa e o mesmo emissor oscilam de forma bem diferente na tela se um vence em 2028 e o outro em 2045. Ninguém sabe de antemão para onde a taxa vai, mas o vencimento diz quanto o preço reage a cada movimento dela.

O ano em que o título “rendeu” menos que a taxa

Vamos acompanhar uma compra concreta, hipotética.

Alguém compra um prefixado de 10 anos a 12% ao ano. Paga R$ 321,97. Passa um ano. O que acontece com o preço depende de onde a taxa de mercado estiver:

Um ano depois, com 9 anos restantes

Taxa de mercadoPreçoVariação no ano
10% a.a.R$ 424,10+31,7%
12% a.a. (inalterada)R$ 360,61+12,0%
14% a.a.R$ 307,51−4,5%
16% a.a.R$ 262,95−18,3%

A linha do meio é o cenário de taxa parada: o título rende exatamente os 12% contratados.

As outras linhas são o que efetivamente aparece na tela quando a taxa se move. No cenário de 14%, o título “perdeu” 4,5% em um ano — apesar de continuar prometendo os mesmos 12% ao ano até o vencimento.

O ponto que resolve tudo

O preço na tela é uma cotação, não um resultado. Ele só se transforma em ganho ou perda no momento em que há venda.

Quem carrega o título até o vencimento recebe o valor de face na data combinada. Isso equivale, matematicamente, a ter obtido a taxa contratada no dia da compra — não importa o que o preço fez no meio do caminho.

A oscilação é do preço, não da promessa. Levando ao vencimento, a taxa que vale é a do dia da compra. Vendendo antes, a taxa que vale é a do dia da venda. A marcação a mercado só produz efeito real para quem vende antes.

Preço teórico e preço de mercado

O Tesouro Direto, nas suas dúvidas frequentes, dá nome aos dois valores que aparecem nesta história: existem dois preços, o teórico, baseado na rentabilidade contratada, e o de mercado, que reflete quanto os investidores estão dispostos a pagar naquele momento.

Os dois valores de um mesmo título

Preço teóricoPreço de mercado
O que éo valor corrigido pelo indexador e pela taxa acordada na compraquanto alguém pagaria pelo título hoje
Depende dea taxa da sua compraa taxa negociada no dia
Quando importase você levar o título até o vencimentose você vender antes

A fórmula do desconto é a mesma para os dois. O que muda é a taxa que entra nela: no teórico, a da sua compra, que não muda; no de mercado, a do dia. O Tesouro informa que os valores do gráfico e do extrato correspondem ao preço de venda do título, o que o investidor receberia se resgatasse antes do vencimento. A CVM, no Portal do Investidor, resume o efeito: olhando o extrato antes do vencimento, o valor pode estar maior ou menor do que o esperado.

A conta do começo ao vencimento

Exemplo ilustrativo. As taxas abaixo foram escolhidas para a conta ficar fácil de acompanhar. Não são as taxas de nenhum dia nem de nenhum título à venda. A conta ignora o imposto, as taxas (a de custódia da B3 e a que a instituição financeira pode cobrar) e a diferença entre preço de compra e de venda, e conta o prazo em anos inteiros; a metodologia que o Tesouro publica para os leilões conta em dias úteis. A mecânica é a mesma; os centavos, não.

Um prefixado paga R$ 1.000 no vencimento, daqui a 4 anos, e é comprado a 10% ao ano:

preço na compra = 1.000 ÷ 1,10^4 = 1.000 ÷ 1,4641 = R$ 683,01

Um ano depois, faltando 3 anos, o preço teórico é a taxa da compra aplicada ao prazo que falta: 1.000 ÷ 1,10^3 = R$ 751,31, o mesmo que 683,01 × 1,10. O preço de mercado depende da taxa do dia:

O mesmo título, um ano depois da compra (ilustrativo)

Taxa de mercado no diaContaPreço de mercadoDiferença para o teóricoRendimento de quem vendesse no dia
8% a.a.1.000 ÷ 1,08^3 = 1.000 ÷ 1,259712R$ 793,83+ R$ 42,52+16,22%
10% a.a. (igual à da compra)1.000 ÷ 1,10^3 = 1.000 ÷ 1,331R$ 751,31R$ 0,00+10,00%
12% a.a.1.000 ÷ 1,12^3 = 1.000 ÷ 1,404928R$ 711,78− R$ 39,53+4,21%
14% a.a.1.000 ÷ 1,14^3 = 1.000 ÷ 1,481544R$ 674,97− R$ 76,34−1,18%

O rendimento da última coluna é o preço de mercado dividido pelo preço da compra, menos um. Na linha de 14%: 674,97 ÷ 683,01 − 1 = −1,18%. Ali o extrato mostra menos do que foi aplicado, e o título continua prometendo os mesmos R$ 1.000 na mesma data. Na linha de 8%, o valor fica acima do teórico: quem vendesse nesse dia levaria, em um ano, mais do que os 10% contratados.

Se ninguém vender, a conta fecha na taxa da compra, qualquer que tenha sido o caminho no meio:

1.000 ÷ 683,01 = 1,4641 = 1,10^4   →   10% ao ano durante 4 anos

E quem comprasse esse título no cenário de 12%, pagando R$ 711,78 com 3 anos restantes, levaria 12% ao ano até o vencimento: 1.000 ÷ 711,78 = 1,404928 = 1,12^3. No mesmo dia, quem vendesse sairia com menos do que o contratado, e quem comprasse o título a 12% entraria com mais. É o que o Tesouro escreve sobre o resgate: se mantido até o vencimento, o investidor recebe a rentabilidade contratada; em caso de resgate antecipado, o retorno pode variar conforme o preço de mercado.

Fora do Tesouro Direto

Em outros títulos com preço negociado antes do vencimento, o que muda é quem compra de volta e se dá para vender antes:

  • Tesouro Direto: segundo o Tesouro, a recompra antecipada é feita somente pelo Tesouro Nacional, ao preço negociado no dia da venda.
  • Debêntures: a CVM registra que costumam ter menos liquidez que as ações e que o preço pode flutuar antes do vencimento, pelas condições econômicas ou pela saúde financeira da empresa emissora, o que ela chama de risco de mercado. Na mesma página, a CVM diz que investir em debêntures envolve principalmente o risco de crédito: a chance de a empresa não conseguir pagar o que deve.
  • LCI e LCA: há prazo mínimo de vencimento, e o Conselho Monetário Nacional proíbe o emissor de recomprar ou resgatar o título antes dele (Resolução CMN nº 4.410, art. 4º, § 2º, para a LCI; Resolução CMN nº 5.006, art. 2º, § 1º, para a LCA). O detalhe está em CDB, LCI e LCA.

O que faz o preço se mover

Se o preço depende da taxa de mercado, a pergunta seguinte é o que move esse preço. As fontes oficiais respondem de forma curta:

  • O Tesouro Direto define a marcação a mercado como a atualização diária do valor do título conforme o preço de mercado, influenciado pela oferta, pela demanda e pelas condições econômicas.
  • A CVM descreve o mesmo ajuste diário conforme as condições da economia e as mudanças nas taxas de juros.
  • O Tesouro Transparente registra que as taxas e os preços do Tesouro Direto refletem o mercado secundário de títulos públicos federais.

Nada disso altera o que o título paga no vencimento: mantido até lá, segundo o Tesouro, ele entrega a rentabilidade contratada. Muda o preço de quem vende antes.

O efeito funciona nos dois sentidos. A mesma conta que derruba o preço quando a taxa sobe faz o preço subir quando a taxa cai. Na tabela de 9 anos acima, a taxa caindo de 12% para 10% leva o título a +31,7% no ano; subindo para 14%, a −4,5%.

Onde ver o número

O Tesouro Nacional publica diariamente as taxas e os preços dos títulos ofertados no Tesouro Direto, e esses dados são divulgados como dado aberto no portal Tesouro Transparente.

Duas taxas aparecem para o mesmo título: a de compra e a de venda. Segundo o Tesouro Direto, como os títulos seguem a marcação a mercado, os preços de compra e de venda podem ser diferentes.

O que muda entre os tipos de título

O Tesouro Direto oferece títulos com três formas de remuneração: prefixada, ligada à variação da inflação e ligada à variação da taxa básica da economia.

A sensibilidade à marcação a mercado não é igual entre eles:

  • Prefixado: taxa travada na compra, preço definido inteiramente por desconto, como na fórmula acima.
  • Ligado à inflação: segundo a CVM, o rendimento soma uma taxa de juros fixa, definida no momento da compra, à variação do IPCA. Como os demais, o título passa pelo ajuste diário do preço que a CVM chama de marcação a mercado, então também há oscilação.
  • Ligado à taxa básica: segundo a CVM, o rendimento do Tesouro Selic segue a taxa Selic, e o preço dele sofre pouca oscilação diária.

O vocabulário completo dessas três formas está em pré, pós e IPCA+, e o índice de referência de duas delas em Selic e CDI.

O imposto entra sobre o rendimento

Se houver venda antecipada com ganho, incide imposto de renda pela tabela regressiva das aplicações de renda fixa, fixada pela Lei 11.033/2004, art. 1º, e publicada pela Receita Federal:

Tabela regressiva — aplicações de renda fixa

Prazo da aplicaçãoAlíquota
Até 180 dias22,5%
De 181 a 360 dias20,0%
De 361 a 720 dias17,5%
Acima de 720 dias15,0%

Segundo o Tesouro Direto, o imposto de renda é cobrado somente sobre o rendimento, e o IOF incide em resgates feitos em menos de 30 dias. O detalhamento está em imposto de renda na renda fixa.

O que isso ajuda a decidir

Este site não recomenda aplicação e não diz o que comprar. O que a mecânica esclarece é qual pergunta fazer antes:

  • Em que data eu preciso desse dinheiro? Se a resposta for “não sei”, a oscilação de preço deixa de ser um detalhe.
  • Qual é o prazo do título? Ele determina o tamanho do balanço, não o risco de crédito.
  • O que eu vou fazer se o preço cair? Quem pretende carregar até o vencimento é indiferente à cotação; quem pode precisar vender antes, não é.

Essas perguntas são as mesmas que aparecem ao dimensionar uma reserva de emergência.

Perguntas frequentes

O que é preço teórico e o que é preço de mercado?

Segundo o Tesouro Direto, o preço teórico é o valor do título corrigido pelo indexador e pela taxa acordada na compra; o de mercado é quanto os investidores estão dispostos a pagar por ele naquele momento. O extrato mostra o preço de venda, que segue o de mercado.

O valor pode ficar acima do teórico?

Pode. Se a taxa negociada no mercado cai depois da sua compra, o preço de mercado sobe acima do teórico, e quem vende nesse momento realiza um rendimento maior que o contratado para o período em que ficou com o título.

Meu título prefixado apareceu com prejuízo. Eu perdi dinheiro?

Só se você vender. O valor que aparece na tela é o preço de recompra naquele dia, calculado pela taxa de mercado vigente. Se você mantiver o título até o vencimento, receberá o valor de face na data combinada, o que corresponde à taxa contratada na compra, antes do imposto de renda e das taxas (a de custódia da B3 e a que a instituição financeira pode cobrar).

Por que o preço cai quando a taxa sobe?

Porque o preço é o valor futuro trazido para hoje. Um título que paga R$ 1.000 daqui a cinco anos vale hoje R$ 1.000 divididos por (1 + taxa) elevado a cinco. Aumentar a taxa aumenta o divisor, então o preço cai. É aritmética de desconto, não deterioração do título.

Todos os títulos oscilam do mesmo jeito?

Não. Quanto mais distante o vencimento, maior a oscilação do preço para a mesma variação de taxa, porque o desconto age sobre mais períodos. Sobre o Tesouro Selic, a CVM registra que o preço sofre pouca oscilação diária e que o rendimento segue a taxa Selic.

Quanto pago de imposto se vender antes?

A tabela regressiva de renda fixa da Lei 11.033/2004, art. 1º: 22,5% até 180 dias, 20% de 181 a 360 dias, 17,5% de 361 a 720 dias e 15% acima de 720 dias. O imposto é cobrado sobre o rendimento. No Tesouro Direto, o resgate segue o modelo PEPS (primeiro a entrar, primeiro a sair), que o Tesouro usa para calcular o imposto sobre o ganho.

Fontes consultadas

Leia também