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Marcação a mercado: por que um título do Tesouro cai antes do vencimento

O preço de um título prefixado é o valor futuro trazido para hoje pela taxa de mercado do dia. Quando a taxa sobe, esse desconto aumenta e o preço na tela cai — sem que nada tenha mudado no título.

Por Murilo · Publicado em 20 de agosto de 2026 · 12 min de leitura

Em resumo

  • Os preços do Tesouro Direto refletem o mercado secundário de títulos públicos — é isso que se chama marcação a mercado.
  • O preço de um prefixado é o valor de vencimento descontado pela taxa do dia; taxa maior significa preço menor.
  • Quanto mais longo o prazo até o vencimento, maior a oscilação do preço para a mesma variação de taxa.
  • A oscilação só vira resultado se houver venda antecipada; levando ao vencimento, vale a taxa contratada.
  • O imposto de renda segue a tabela regressiva de 22,5% a 15%, conforme o prazo da aplicação.

A cena é conhecida: a pessoa compra um título público, deixa quieto, abre o aplicativo meses depois e vê o valor abaixo do que aplicou. Em um investimento chamado “o mais seguro do mercado”.

Não houve calote nem erro. Houve marcação a mercado — e ela é aritmética, não opinião.

O que a marcação a mercado é

O Tesouro Nacional publica diariamente os preços e as taxas dos títulos ofertados. Segundo o próprio Tesouro, esses preços refletem o mercado secundário de títulos públicos federais: são as taxas e preços de compra e venda praticados naquele dia.

Marcar a mercado é isso: exibir o valor pelo qual o título seria negociado hoje, e não o valor pelo qual você o comprou.

No Tesouro Direto, esse número tem uma consequência concreta, porque há liquidez diária — o investidor pode pedir o resgate a qualquer dia útil, e nesse caso o Tesouro recompra o título pelo preço de mercado daquele momento.

De onde vem o preço

Um título prefixado é uma promessa simples: pagar um valor conhecido numa data conhecida. O valor de face de referência é R$ 1.000 no vencimento.

O preço de hoje é esse valor futuro trazido para o presente pela taxa negociada no dia:

preço = 1.000 ÷ (1 + taxa)^anos até o vencimento

É a mesma matemática dos juros compostos, rodando de trás para a frente. E é por isso que a relação entre taxa e preço é sempre inversa: aumentar a taxa aumenta o divisor.

Preço de um prefixado de R$ 1.000, por taxa e prazo

Anos até o vencimentoTaxa 10% a.a.Taxa 12% a.a.Taxa 14% a.a.
1R$ 909,09R$ 892,86R$ 877,19
5R$ 620,92R$ 567,43R$ 519,37
10R$ 385,54R$ 321,97R$ 269,74

Repare no efeito do prazo. Passar de 12% para 14% muda o preço de um título de 1 ano em cerca de 1,8%. Muda o preço de um título de 10 anos em cerca de 16%.

O prazo é o multiplicador da oscilação. Dois títulos com a mesma taxa e o mesmo emissor se comportam de forma completamente diferente na tela se um vence em 2028 e o outro em 2045. Quem não olha o vencimento antes de comprar não sabe o quanto o preço vai balançar.

O ano em que o título “rendeu” menos que a taxa

Vamos acompanhar uma compra concreta, hipotética.

Alguém compra um prefixado de 10 anos a 12% ao ano. Paga R$ 321,97. Passa um ano. O que acontece com o preço depende de onde a taxa de mercado estiver:

Um ano depois, com 9 anos restantes

Taxa de mercadoPreçoVariação no ano
10% a.a.R$ 424,10+31,7%
12% a.a. (inalterada)R$ 360,61+12,0%
14% a.a.R$ 307,51−4,5%
16% a.a.R$ 262,95−18,3%

A linha do meio é o que muita gente imagina que sempre acontece: taxa parada, título rendendo exatamente os 12% contratados. É o chamado carrego.

As outras linhas são o que efetivamente aparece na tela quando a taxa se move. No cenário de 14%, o título “perdeu” 4,5% em um ano — apesar de continuar prometendo os mesmos 12% ao ano até o vencimento.

O ponto que resolve tudo

O preço na tela é uma cotação, não um resultado. Ele só se transforma em ganho ou perda no momento em que há venda.

Quem carrega o título até o vencimento recebe o valor de face na data combinada. Isso equivale, matematicamente, a ter obtido a taxa contratada no dia da compra — não importa o que o preço fez no meio do caminho.

A oscilação é do preço, não da promessa. Levando ao vencimento, a taxa que vale é a do dia da compra. Vendendo antes, a taxa que vale é a do dia da venda. A marcação a mercado só produz efeito real para quem vende antes.

O que faz a taxa se mover

Se o preço depende da taxa de mercado, a pergunta seguinte é o que move essa taxa. Duas forças aparecem sempre:

  • A taxa básica de juros e, principalmente, o que o mercado espera dela adiante. Um prefixado de dez anos não é precificado pela taxa de hoje, e sim pela média esperada ao longo dos dez anos.
  • O prêmio exigido para carregar risco por mais tempo. Quando a incerteza aumenta, quem compra títulos longos passa a exigir taxa maior — e taxa maior significa preço menor para quem já tinha o papel.

Nada disso altera o compromisso do emissor. Altera o preço que outra pessoa aceita pagar hoje por aquele compromisso.

O efeito funciona nos dois sentidos, e com a mesma intensidade. A mesma matemática que derruba o preço quando a taxa sobe faz o preço saltar quando a taxa cai. Quem só olha a tela nos meses ruins conclui que renda fixa "não é fixa"; quem entende o desconto vê o mesmo mecanismo funcionando o tempo todo.

Onde ver o número

O Tesouro Nacional publica diariamente as taxas e os preços dos títulos ofertados no Tesouro Direto, e esses dados são divulgados como dado aberto no portal Tesouro Transparente.

Duas taxas aparecem para o mesmo título: a de compra e a de venda. A diferença entre elas é o custo implícito de entrar e sair antes do prazo — mais um motivo pelo qual a venda antecipada não é neutra, mesmo quando o preço está favorável.

O que muda entre os tipos de título

O Tesouro Direto oferece títulos com três formas de remuneração: prefixada, ligada à variação da inflação e ligada à variação da taxa básica da economia.

A sensibilidade à marcação a mercado não é igual entre eles:

  • Prefixado: taxa travada na compra, preço definido inteiramente por desconto. É onde a oscilação é mais visível.
  • Ligado à inflação: parte da remuneração acompanha o índice de preços e parte é uma taxa real fixada na compra. Essa taxa real é descontada do mesmo jeito, então também há oscilação, e ela também cresce com o prazo.
  • Ligado à taxa básica: a remuneração acompanha a taxa em vez de ser fixada de antemão, o que reduz muito a diferença entre o preço de hoje e o valor acumulado. É por isso que esse título costuma aparecer com oscilação pequena.

O vocabulário completo dessas três formas está em pré, pós e IPCA+, e o índice de referência de duas delas em Selic e CDI.

O imposto entra sobre o rendimento

Se houver venda antecipada com ganho, incide imposto de renda pela tabela regressiva das aplicações de renda fixa, publicada pela Receita Federal:

Tabela regressiva — aplicações de renda fixa

Prazo da aplicaçãoAlíquota
Até 180 dias22,5%
De 180 a 360 dias20,0%
De 361 a 720 dias17,5%
Acima de 720 dias15,0%

A alíquota incide apenas sobre o rendimento, nunca sobre o valor aplicado. O detalhamento, incluindo o IOF de resgates com menos de 30 dias, está em imposto de renda na renda fixa.

O que isso ajuda a decidir

Este site não recomenda aplicação e não diz o que comprar. O que a mecânica esclarece é qual pergunta fazer antes:

  • Em que data eu preciso desse dinheiro? Se a resposta for “não sei”, a oscilação de preço deixa de ser um detalhe.
  • Qual é o prazo do título? Ele determina o tamanho do balanço, não o risco de crédito.
  • O que eu vou fazer se o preço cair? Quem pretende carregar até o vencimento é indiferente à cotação; quem pode precisar vender antes, não é.

Essas perguntas são as mesmas que aparecem ao dimensionar uma reserva de emergência — porque dinheiro que pode ser necessário a qualquer momento é justamente o dinheiro que não deveria estar sujeito a marcação.

Perguntas frequentes

Meu título prefixado apareceu com prejuízo. Eu perdi dinheiro?

Só se você vender. O valor que aparece na tela é o preço de recompra naquele dia, calculado pela taxa de mercado vigente. Se você mantiver o título até o vencimento, receberá o valor de face na data combinada, o que corresponde exatamente à taxa contratada na compra.

Por que o preço cai quando a taxa sobe?

Porque o preço é o valor futuro trazido para hoje. Um título que paga R$ 1.000 daqui a cinco anos vale hoje R$ 1.000 divididos por (1 + taxa) elevado a cinco. Aumentar a taxa aumenta o divisor, então o preço cai. É aritmética de desconto, não deterioração do título.

Todos os títulos oscilam do mesmo jeito?

Não. Quanto mais distante o vencimento, maior a oscilação do preço para a mesma variação de taxa, porque o desconto age sobre mais períodos. Títulos pós-fixados atrelados à taxa básica têm oscilação muito menor, porque a remuneração deles acompanha a taxa em vez de ser fixada de antemão.

Quanto pago de imposto se vender antes?

A tabela regressiva de renda fixa publicada pela Receita Federal: 22,5% até 180 dias, 20% de 180 a 360 dias, 17,5% de 361 a 720 dias e 15% acima de 720 dias. A alíquota incide sobre o rendimento, e o prazo conta a partir de cada aplicação.

Fontes consultadas

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