Marcação a mercado: por que um título do Tesouro cai antes do vencimento
O preço de um título prefixado é o valor futuro trazido para hoje pela taxa de mercado do dia. Quando a taxa sobe, esse desconto aumenta e o preço na tela cai — sem que nada tenha mudado no título.
Em resumo
- Os preços do Tesouro Direto refletem o mercado secundário de títulos públicos — é isso que se chama marcação a mercado.
- O preço de um prefixado é o valor de vencimento descontado pela taxa do dia; taxa maior significa preço menor.
- Quanto mais longo o prazo até o vencimento, maior a oscilação do preço para a mesma variação de taxa.
- A oscilação só vira resultado se houver venda antecipada; levando ao vencimento, vale a taxa contratada.
- Antes do vencimento há dois preços: o teórico, que segue a taxa contratada, e o de mercado, que é o que aparece no extrato.
- O imposto de renda segue a tabela regressiva de 22,5% a 15%, conforme o prazo da aplicação.
A cena é conhecida: a pessoa compra um título público, deixa quieto, abre o aplicativo meses depois e vê o valor abaixo do que aplicou. Em um investimento chamado “o mais seguro do mercado”.
Não houve calote nem erro. Houve marcação a mercado — e ela é aritmética, não opinião.
O que a marcação a mercado é
O Tesouro Nacional publica diariamente os preços e as taxas dos títulos ofertados. Segundo o próprio Tesouro, esses preços refletem o mercado secundário de títulos públicos federais: são as taxas e preços de compra e venda praticados naquele dia.
Marcar a mercado é isso: exibir o valor pelo qual o título seria negociado hoje, e não o valor pelo qual você o comprou.
No Tesouro Direto, esse número tem uma consequência concreta, porque o resgate antecipado é feito pelo preço de mercado. Segundo o Tesouro, há liquidez diária, com resgate disponível a qualquer momento: nos dias úteis, das 9h30 às 18h, vale o preço do momento; fora desse horário, o preço de abertura do dia útil seguinte. A regra tem exceções no mesmo texto do Tesouro: o Tesouro RendA+ e o Educa+ só podem ser resgatados após 60 dias da compra, e os títulos com juros semestrais têm o resgate suspenso dois dias úteis antes do pagamento.
De onde vem o preço
Um título prefixado é uma promessa simples: pagar um valor conhecido numa data conhecida. Na metodologia que o Tesouro publica para os leilões, o prefixado sem juros semestrais (a LTN) tem valor de face de R$ 1.000 no vencimento.
O preço de hoje é esse valor futuro trazido para o presente pela taxa negociada no dia:
preço = 1.000 ÷ (1 + taxa)^anos até o vencimento
Na metodologia que o Tesouro publica para os leilões, o expoente é o número de dias úteis até o vencimento dividido por 252. Neste artigo, para a conta ficar legível, o prazo vai em anos inteiros.
É a mesma matemática dos juros compostos, rodando de trás para a frente. E é por isso que a relação entre taxa e preço é sempre inversa: aumentar a taxa aumenta o divisor.
Preço de um prefixado de R$ 1.000, por taxa e prazo
| Anos até o vencimento | Taxa 10% a.a. | Taxa 12% a.a. | Taxa 14% a.a. |
|---|---|---|---|
| 1 | R$ 909,09 | R$ 892,86 | R$ 877,19 |
| 5 | R$ 620,92 | R$ 567,43 | R$ 519,37 |
| 10 | R$ 385,54 | R$ 321,97 | R$ 269,74 |
Repare no efeito do prazo. Passar de 12% para 14% muda o preço de um título de 1 ano em cerca de 1,8%. Muda o preço de um título de 10 anos em cerca de 16%.
O ano em que o título “rendeu” menos que a taxa
Vamos acompanhar uma compra concreta, hipotética.
Alguém compra um prefixado de 10 anos a 12% ao ano. Paga R$ 321,97. Passa um ano. O que acontece com o preço depende de onde a taxa de mercado estiver:
Um ano depois, com 9 anos restantes
| Taxa de mercado | Preço | Variação no ano |
|---|---|---|
| 10% a.a. | R$ 424,10 | +31,7% |
| 12% a.a. (inalterada) | R$ 360,61 | +12,0% |
| 14% a.a. | R$ 307,51 | −4,5% |
| 16% a.a. | R$ 262,95 | −18,3% |
A linha do meio é o cenário de taxa parada: o título rende exatamente os 12% contratados.
As outras linhas são o que efetivamente aparece na tela quando a taxa se move. No cenário de 14%, o título “perdeu” 4,5% em um ano — apesar de continuar prometendo os mesmos 12% ao ano até o vencimento.
O ponto que resolve tudo
O preço na tela é uma cotação, não um resultado. Ele só se transforma em ganho ou perda no momento em que há venda.
Quem carrega o título até o vencimento recebe o valor de face na data combinada. Isso equivale, matematicamente, a ter obtido a taxa contratada no dia da compra — não importa o que o preço fez no meio do caminho.
Preço teórico e preço de mercado
O Tesouro Direto, nas suas dúvidas frequentes, dá nome aos dois valores que aparecem nesta história: existem dois preços, o teórico, baseado na rentabilidade contratada, e o de mercado, que reflete quanto os investidores estão dispostos a pagar naquele momento.
Os dois valores de um mesmo título
| Preço teórico | Preço de mercado | |
|---|---|---|
| O que é | o valor corrigido pelo indexador e pela taxa acordada na compra | quanto alguém pagaria pelo título hoje |
| Depende de | a taxa da sua compra | a taxa negociada no dia |
| Quando importa | se você levar o título até o vencimento | se você vender antes |
A fórmula do desconto é a mesma para os dois. O que muda é a taxa que entra nela: no teórico, a da sua compra, que não muda; no de mercado, a do dia. O Tesouro informa que os valores do gráfico e do extrato correspondem ao preço de venda do título, o que o investidor receberia se resgatasse antes do vencimento. A CVM, no Portal do Investidor, resume o efeito: olhando o extrato antes do vencimento, o valor pode estar maior ou menor do que o esperado.
A conta do começo ao vencimento
Um prefixado paga R$ 1.000 no vencimento, daqui a 4 anos, e é comprado a 10% ao ano:
preço na compra = 1.000 ÷ 1,10^4 = 1.000 ÷ 1,4641 = R$ 683,01
Um ano depois, faltando 3 anos, o preço teórico é a taxa da compra aplicada ao prazo que falta: 1.000 ÷ 1,10^3 = R$ 751,31, o mesmo que 683,01 × 1,10. O preço de mercado depende da taxa do dia:
O mesmo título, um ano depois da compra (ilustrativo)
| Taxa de mercado no dia | Conta | Preço de mercado | Diferença para o teórico | Rendimento de quem vendesse no dia |
|---|---|---|---|---|
| 8% a.a. | 1.000 ÷ 1,08^3 = 1.000 ÷ 1,259712 | R$ 793,83 | + R$ 42,52 | +16,22% |
| 10% a.a. (igual à da compra) | 1.000 ÷ 1,10^3 = 1.000 ÷ 1,331 | R$ 751,31 | R$ 0,00 | +10,00% |
| 12% a.a. | 1.000 ÷ 1,12^3 = 1.000 ÷ 1,404928 | R$ 711,78 | − R$ 39,53 | +4,21% |
| 14% a.a. | 1.000 ÷ 1,14^3 = 1.000 ÷ 1,481544 | R$ 674,97 | − R$ 76,34 | −1,18% |
O rendimento da última coluna é o preço de mercado dividido pelo preço da compra, menos um. Na linha de 14%: 674,97 ÷ 683,01 − 1 = −1,18%. Ali o extrato mostra menos do que foi aplicado, e o título continua prometendo os mesmos R$ 1.000 na mesma data. Na linha de 8%, o valor fica acima do teórico: quem vendesse nesse dia levaria, em um ano, mais do que os 10% contratados.
Se ninguém vender, a conta fecha na taxa da compra, qualquer que tenha sido o caminho no meio:
1.000 ÷ 683,01 = 1,4641 = 1,10^4 → 10% ao ano durante 4 anos
E quem comprasse esse título no cenário de 12%, pagando R$ 711,78 com 3 anos restantes, levaria 12% ao ano até o vencimento: 1.000 ÷ 711,78 = 1,404928 = 1,12^3. No mesmo dia, quem vendesse sairia com menos do que o contratado, e quem comprasse o título a 12% entraria com mais. É o que o Tesouro escreve sobre o resgate: se mantido até o vencimento, o investidor recebe a rentabilidade contratada; em caso de resgate antecipado, o retorno pode variar conforme o preço de mercado.
Fora do Tesouro Direto
Em outros títulos com preço negociado antes do vencimento, o que muda é quem compra de volta e se dá para vender antes:
- Tesouro Direto: segundo o Tesouro, a recompra antecipada é feita somente pelo Tesouro Nacional, ao preço negociado no dia da venda.
- Debêntures: a CVM registra que costumam ter menos liquidez que as ações e que o preço pode flutuar antes do vencimento, pelas condições econômicas ou pela saúde financeira da empresa emissora, o que ela chama de risco de mercado. Na mesma página, a CVM diz que investir em debêntures envolve principalmente o risco de crédito: a chance de a empresa não conseguir pagar o que deve.
- LCI e LCA: há prazo mínimo de vencimento, e o Conselho Monetário Nacional proíbe o emissor de recomprar ou resgatar o título antes dele (Resolução CMN nº 4.410, art. 4º, § 2º, para a LCI; Resolução CMN nº 5.006, art. 2º, § 1º, para a LCA). O detalhe está em CDB, LCI e LCA.
O que faz o preço se mover
Se o preço depende da taxa de mercado, a pergunta seguinte é o que move esse preço. As fontes oficiais respondem de forma curta:
- O Tesouro Direto define a marcação a mercado como a atualização diária do valor do título conforme o preço de mercado, influenciado pela oferta, pela demanda e pelas condições econômicas.
- A CVM descreve o mesmo ajuste diário conforme as condições da economia e as mudanças nas taxas de juros.
- O Tesouro Transparente registra que as taxas e os preços do Tesouro Direto refletem o mercado secundário de títulos públicos federais.
Nada disso altera o que o título paga no vencimento: mantido até lá, segundo o Tesouro, ele entrega a rentabilidade contratada. Muda o preço de quem vende antes.
Onde ver o número
O Tesouro Nacional publica diariamente as taxas e os preços dos títulos ofertados no Tesouro Direto, e esses dados são divulgados como dado aberto no portal Tesouro Transparente.
Duas taxas aparecem para o mesmo título: a de compra e a de venda. Segundo o Tesouro Direto, como os títulos seguem a marcação a mercado, os preços de compra e de venda podem ser diferentes.
O que muda entre os tipos de título
O Tesouro Direto oferece títulos com três formas de remuneração: prefixada, ligada à variação da inflação e ligada à variação da taxa básica da economia.
A sensibilidade à marcação a mercado não é igual entre eles:
- Prefixado: taxa travada na compra, preço definido inteiramente por desconto, como na fórmula acima.
- Ligado à inflação: segundo a CVM, o rendimento soma uma taxa de juros fixa, definida no momento da compra, à variação do IPCA. Como os demais, o título passa pelo ajuste diário do preço que a CVM chama de marcação a mercado, então também há oscilação.
- Ligado à taxa básica: segundo a CVM, o rendimento do Tesouro Selic segue a taxa Selic, e o preço dele sofre pouca oscilação diária.
O vocabulário completo dessas três formas está em pré, pós e IPCA+, e o índice de referência de duas delas em Selic e CDI.
O imposto entra sobre o rendimento
Se houver venda antecipada com ganho, incide imposto de renda pela tabela regressiva das aplicações de renda fixa, fixada pela Lei 11.033/2004, art. 1º, e publicada pela Receita Federal:
Tabela regressiva — aplicações de renda fixa
| Prazo da aplicação | Alíquota |
|---|---|
| Até 180 dias | 22,5% |
| De 181 a 360 dias | 20,0% |
| De 361 a 720 dias | 17,5% |
| Acima de 720 dias | 15,0% |
Segundo o Tesouro Direto, o imposto de renda é cobrado somente sobre o rendimento, e o IOF incide em resgates feitos em menos de 30 dias. O detalhamento está em imposto de renda na renda fixa.
O que isso ajuda a decidir
Este site não recomenda aplicação e não diz o que comprar. O que a mecânica esclarece é qual pergunta fazer antes:
- Em que data eu preciso desse dinheiro? Se a resposta for “não sei”, a oscilação de preço deixa de ser um detalhe.
- Qual é o prazo do título? Ele determina o tamanho do balanço, não o risco de crédito.
- O que eu vou fazer se o preço cair? Quem pretende carregar até o vencimento é indiferente à cotação; quem pode precisar vender antes, não é.
Essas perguntas são as mesmas que aparecem ao dimensionar uma reserva de emergência.
Perguntas frequentes
O que é preço teórico e o que é preço de mercado?
Segundo o Tesouro Direto, o preço teórico é o valor do título corrigido pelo indexador e pela taxa acordada na compra; o de mercado é quanto os investidores estão dispostos a pagar por ele naquele momento. O extrato mostra o preço de venda, que segue o de mercado.
O valor pode ficar acima do teórico?
Pode. Se a taxa negociada no mercado cai depois da sua compra, o preço de mercado sobe acima do teórico, e quem vende nesse momento realiza um rendimento maior que o contratado para o período em que ficou com o título.
Meu título prefixado apareceu com prejuízo. Eu perdi dinheiro?
Só se você vender. O valor que aparece na tela é o preço de recompra naquele dia, calculado pela taxa de mercado vigente. Se você mantiver o título até o vencimento, receberá o valor de face na data combinada, o que corresponde à taxa contratada na compra, antes do imposto de renda e das taxas (a de custódia da B3 e a que a instituição financeira pode cobrar).
Por que o preço cai quando a taxa sobe?
Porque o preço é o valor futuro trazido para hoje. Um título que paga R$ 1.000 daqui a cinco anos vale hoje R$ 1.000 divididos por (1 + taxa) elevado a cinco. Aumentar a taxa aumenta o divisor, então o preço cai. É aritmética de desconto, não deterioração do título.
Todos os títulos oscilam do mesmo jeito?
Não. Quanto mais distante o vencimento, maior a oscilação do preço para a mesma variação de taxa, porque o desconto age sobre mais períodos. Sobre o Tesouro Selic, a CVM registra que o preço sofre pouca oscilação diária e que o rendimento segue a taxa Selic.
Quanto pago de imposto se vender antes?
A tabela regressiva de renda fixa da Lei 11.033/2004, art. 1º: 22,5% até 180 dias, 20% de 181 a 360 dias, 17,5% de 361 a 720 dias e 15% acima de 720 dias. O imposto é cobrado sobre o rendimento. No Tesouro Direto, o resgate segue o modelo PEPS (primeiro a entrar, primeiro a sair), que o Tesouro usa para calcular o imposto sobre o ganho.
Fontes consultadas
- Tesouro Transparente (Tesouro Nacional) — Tesouro Direto
- Receita Federal — tabelas de tributação de 2026, aplicações de renda fixa
- Lei nº 11.033, de 21/12/2004 — art. 1º, I a IV (alíquotas do imposto de renda nas aplicações de renda fixa, por prazo)
- Tesouro Direto (Tesouro Nacional e B3) — Dúvidas frequentes: "O que é marcação a mercado?", "O que significa rentabilidade negativa no Tesouro Direto?", "O que é mostrado no gráfico e extrato?", "Como funciona o fluxo de resgates antecipados no Tesouro Direto?", "Em caso de resgate antecipado, só o Tesouro pode comprar meu título?", "Quais impostos são cobrados?", "Há cobrança de taxas?" e "O RendA+ é isento do IR?" (consultado em 13/10/2026)
- Tesouro Nacional — Metodologia de Cálculo dos Títulos Públicos Federais Ofertados nos Leilões Primários (metodologia que o Tesouro publica para os leilões), versão de 29/04/2024: Tabelas 1 e 2 e cálculo do preço da LTN (consultado em 13/10/2026)
- CVM — Portal do Investidor: Títulos Públicos, marcação a mercado e venda antecipada (consultado em 13/10/2026)
- CVM — Portal do Investidor: Debêntures, riscos, liquidez e preço antes do vencimento (consultado em 13/10/2026)
- Resolução CMN nº 4.410, de 28/5/2015 — texto consolidado, art. 4º, § 2º, I (vedação de recompra da LCI antes do prazo mínimo)
- Resolução CMN nº 5.006, de 24/3/2022 — art. 2º, § 1º, I (vedação de recompra da LCA antes do prazo mínimo)
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